Bandolins pelo Mundo – Parte 1: As Origens

Bandolins pelo Mundo – Parte 1: As Origens

O bandolim moderno é um descendente do Alaúde. Os cordofones semelhantes ao Alaúde tiveram origem na Mesopotâmia cerca de 2000 a.C. Não tinham trastes e era tocados com um arco ou com algo semelhante a uma palheta. Por volta do século VII, o Oud era já popular na cultura árabe. Este instrumento chegou até aos dias de hoje quase intocado e é ainda utilizado na música popular do Médio Oriente.

A. Oud moderno B. Saz (mmb.org.gr)

No século VIII, o al L’Oud (que significa “a madeira” em Árabe) e o Saz (que significa “música” em Persa) foram introduzidos em Espanha durante a invasão Moura e terão seguido até Veneza e resto da Europa através das rotas comerciais.

Com o decorrer dos séculos o al L’Oud tornou-se no Alaúde. Foram adicionados os primeiros trastes, amarando cordas de tripa à volta do braço e passaram-se a utilizar cordas duplas, surgindo assim o primeiro Alaúde medieval no século XIII. A partir do século XV começaram-se a adicionar mais cordas até às 13 cordas no seu auge (6 duplas e 1 simples). Uma das características mais marcantes do Alaúde é o facto de ter o cravelhame inclinado quase 90º em relação ao braço.

Anjo a tocar Alaúde, da “Apresentação no Templo”, Vittore Carpaccio, 1510; Accademia, Veneza

No século XIII, o Quiterne (ou Gittern, um dos antepassado da guitarra) foi um dos primeiros descendentes do Alaúde. Era feito a partir de um único bloco de madeira, com uma rosácea a cobrir o orifício sonoro e, geralmente, com a cabeça de um animal esculpido no cravelhame. Tinha 3 ou 4 cordas duplas de tripa que eram atadas ao cavalete.

Quiterne (James Bisgood, UK 1983)

Renascença

Por volta do século XIV surge uma espécie de miniatura do alaúde chamada Mandora. Pensa-se que a Mandora terá sido criada para preencher um espaço sonoro nos ensambles de alaúdes, sendo também referida como “um Alaúde para principiantes”.

Mandora (Museum V&A, London)

Muito mais pequena que o Alaúde (cerca de metade do comprimento das cordas), a Mandora tinha 4 ou 6 cordas de tripa (simples ou duplas) e era tocada com os dedos tal como o Alaúde.

O nome Mandora deriva da palavra mandorla (que significa amêndoa em italiano) e descreve o formato do instrumento suavemente abaulado. Ligeiras variações da Mandora incluíam a Pandura assíria, a Dambura árabe, a Mandola italiana (1589) e a Mandore francesa (1585). A Mandola italiana distingue-se da Mandore francesa por ter uma afinação por quartas em vez de quintas.

Barroco

No século XVII surgiu o Mandolino, o primeiro descendente da Mandora. Também conhecido como bandolim barroco, é uma versão mais pequena da Mandora com 6 cordas duplas (afinadas por quartas na forma GBEADG) e era tocado com uma pena, palheta de madeira ou com os dedos.

A. Bandolim Barroco (Musée de la Musique, Paris) B. Bandolim Lombardo (Alex Timmerman) C. Bandolim Milanês (Alex Timmerman)

Este é o instrumento original para qual Vivaldi escreveu os seus famosos concertos. Para além de Vivaldi, também Scarlatti, Hasse, Hoffmann, Guiliani e outros escreveram peças para bandolim durante o período barroco. O Bandolim tocava juntamente com alaúdes, harpas, cravo e outros instrumentos com arco. Contrariamente ao alaúde, as composições para bandolim tinham geralmente uma única linha melódica e como esta era a mais aguda era fácil ouvir o som do bandolim.

O bandolim barroco sobreviveu até aos dias de hoje, com poucas alterações, sob a forma do Bandolim Milanês e do Bandolim Lombardo, ambos com o 6 cordas simples.
Durante o século XVIII nasceram novas variações do bandolim barroco com mais ou menos cordas, tais como o Bandolim Genovês e o Bandolim Cremonês que tiveram pouco sucesso.

Em Nápoles, por volta de 1744, surgiu o primeiro Bandolim Napolitano, revelando algumas influências do Tanbur e do Bouzuk turco. O novo tipo de bandolim era muito mais abaulado, tinha 4 cordas duplas e, como estas eram de metal, estavam presas no fundo do instrumento (de uma forma semelhante à da chitarra battente) para reduzir a tensão no cavalete. No entanto, devido à fraca qualidade das cordas metálicas, a corda mais aguda era feita de tripa. As cravelhas eram ainda feitas de madeira mas estavam colocadas de uma forma perpendicular ao cravelhame ligeiramente inclinado. A afinação era já por quintas, igual à do violino (GDAE), e este era um instrumento para ser tocado apenas com uma palheta.

Bandolim Napolitano Vinaccia 1790 (Reprodução de Alfred Woll)

Romântico

O bandolim “moderno” surgiu só por volta de 1830 com os melhoramentos na qualidade de construção das cordas. Esta foi a altura altura em que a família Vinaccia iria mudar o aspecto dos bandolins ao aumentar a escala até aos 17 trastes e ao utilizar cravelhas de metal. Mas isso é outra historia…
(continua)

Fontes:
Alfred Woll, woll-mandolinen.de
A Brief History of the Mandolin, Mandolin Cafe, mandolincafe.com
Mandolin & Mandola History, banjolin.co.uk
A Brief History of the Mandolin, Nicola Swinburne, mandolinserenade.com
The Mandolin – A Brief History, U. Srinivas, carnatica.net/sangeet/
ATLAS of Plucked Instruments, atlasofpluckedinstruments.com
Julio Pereira, juliopereira.pt
The Mandolin and the Guitar through the Centuries, Alex Timmerman
The Classical Mandolin, Paul Sparks, Clarendon Press, 1995
The Early Mandolin, James Tyler & Paul Sparks, Oxford University Press, 1989

Compilado por Élio Cró

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